Via Aérea Difícil: E Agora? Guia Completo para Profissionais de Saúde

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É 3h da madrugada no pronto-socorro. Um paciente de 45 anos, obeso, com histórico de apneia do sono, chega em insuficiência respiratória aguda. Após três tentativas frustradas de intubação, você se depara com o cenário mais temido por qualquer profissional de emergência: “não entubo, não ventilo”. A saturação despenca, o paciente está cianótico, e cada segundo que passa pode ser a diferença entre a vida e a morte. Você está preparado para agir?

A via aérea difícil representa um dos maiores desafios na medicina de emergência, anestesiologia e terapia intensiva. Estudos demonstram que complicações relacionadas ao manejo inadequado da via aérea estão entre as principais causas de morbidade e mortalidade em ambientes hospitalares [1]. A incidência de via aérea difícil varia entre 1,5% a 13% dos casos, dependendo da população estudada e dos critérios utilizados [2]. Mais alarmante ainda é o fato de que aproximadamente 25% dos casos de via aérea difícil não são antecipados durante a avaliação pré-procedimento [3].

O manejo inadequado da via aérea pode resultar em hipoxemia grave, parada cardiorrespiratória, lesão neurológica permanente e morte. Por outro lado, o reconhecimento precoce dos fatores de risco, a preparação adequada e o domínio de algoritmos estruturados podem transformar uma situação potencialmente catastrófica em um procedimento controlado e seguro.

Este artigo tem como objetivo fornecer um guia prático e abrangente para profissionais de saúde que atuam em situações críticas, abordando desde o reconhecimento precoce dos sinais de via aérea difícil até as estratégias de resgate em cenários de “não entubo, não ventilo”. Através de uma abordagem baseada em evidências e protocolos internacionalmente reconhecidos, você será capacitado a tomar decisões rápidas, seguras e eficazes sob pressão, salvando vidas quando cada segundo conta.

Definições Fundamentais

Anatomia da Via Aérea

Figura 1: Anatomia detalhada da via aérea superior mostrando estruturas importantes para o manejo da intubação

Antes de mergulharmos nas estratégias práticas de manejo, é fundamental estabelecer uma base conceitual sólida. A terminologia relacionada à via aérea difícil muitas vezes é utilizada de forma imprecisa, o que pode levar a confusões e decisões inadequadas em momentos críticos.

Via Aérea Difícil vs. Via Aérea Falha

A via aérea difícil é definida como aquela cujas características anatômicas ou fisiológicas preveem alguma dificuldade durante a técnica de manejo, seja para ventilação sob máscara, intubação orotraqueal ou outros procedimentos [4]. É importante notar que esta definição é preditiva – ou seja, baseada na avaliação pré-procedimento que sugere potenciais dificuldades.

Por outro lado, a via aérea falha refere-se à situação em que a técnica escolhida efetivamente falhou, e o resgate deve ser realizado através de métodos alternativos [5]. Esta é uma definição retrospectiva, baseada no insucesso do procedimento inicialmente planejado. A distinção entre estes conceitos é crucial porque determina diferentes abordagens: a via aérea difícil requer preparação e planejamento preventivo, enquanto a via aérea falha demanda ação imediata de resgate.

Anatomia Laríngea Normal

Figura 2: Anatomia laríngea normal mostrando a relação entre epiglote, cordas vocais e estruturas adjacentes

Via Aérea Definitiva

O conceito de via aérea definitiva é central no manejo de emergências respiratórias. Define-se como um tubo com cuff insuflado, posicionado abaixo das cordas vocais, devidamente fixado e conectado à fonte de oxigênio [6]. Esta definição aparentemente simples carrega implicações importantes: o tubo deve estar corretamente posicionado (confirmado por métodos objetivos), o cuff deve estar funcionante para prevenir aspiração, e todo o sistema deve estar adequadamente conectado e funcionando.

Intubação Difícil

A intubação difícil é caracterizada quando são necessárias mais de três tentativas de laringoscopia ou quando o procedimento demora mais de 10 minutos para ser completado [7]. Esta definição quantitativa é importante porque estabelece critérios objetivos para reconhecer quando uma abordagem não está sendo efetiva e quando é necessário mudar de estratégia.

Via Aérea Fisiologicamente Difícil

Um conceito mais recente e igualmente importante é o de via aérea fisiologicamente difícil, que se refere a situações onde alterações fisiológicas e fisiopatológicas aumentam o risco de complicações durante o manejo da via aérea, independentemente da anatomia [8]. Exemplos incluem pacientes com hipoxemia grave, instabilidade hemodinâmica, acidose metabólica severa ou aumento da pressão intracraniana. Estes pacientes podem ter anatomia normal, mas as alterações fisiológicas tornam o procedimento de alto risco.

A compreensão clara destas definições é fundamental porque cada uma delas implica em estratégias específicas de abordagem. Enquanto a via aérea anatomicamente difícil pode ser antecipada através de avaliação física sistemática, a via aérea fisiologicamente difícil requer avaliação das condições clínicas do paciente e pode demandar modificações na técnica padrão de intubação, como a sequência rápida de intubação modificada ou o uso de técnicas de preoxigenação apneica.

Reconhecimento Precoce da Via Aérea Difícil

Visualização Laringoscópica

Figura 3: Diferentes graus de visualização durante a laringoscopia – fundamental para classificação de Cormack-Lehane

O reconhecimento precoce da via aérea difícil é, sem dúvida, o fator mais importante para o sucesso do manejo. A avaliação sistemática e estruturada pode identificar até 75% dos casos de via aérea difícil antes do procedimento [9], permitindo planejamento adequado e preparação de estratégias alternativas.

Avaliação Pré-procedimento: A Anamnese Direcionada

A história clínica do paciente fornece pistas valiosas sobre potenciais dificuldades. Durante a anamnese, sempre que possível, deve-se investigar especificamente a história prévia de via aérea difícil. Pacientes que já tiveram dificuldades em procedimentos anteriores têm alta probabilidade de apresentar os mesmos problemas novamente [10].

Diversas condições médicas estão associadas ao aumento do risco de via aérea difícil. A acromegalia causa crescimento desproporcional dos tecidos moles da face e pescoço, dificultando tanto a ventilação quanto a intubação. Anomalias congênitas como síndrome de Pierre Robin, síndrome de Treacher Collins e outras malformações craniofaciais alteram significativamente a anatomia da via aérea superior.

A apneia obstrutiva do sono (AOS) merece atenção especial, pois está presente em uma parcela significativa da população e frequentemente não é diagnosticada. Pacientes com AOS têm maior probabilidade de apresentar dificuldades tanto para ventilação sob máscara quanto para intubação [11]. Para triagem destes pacientes, utiliza-se o questionário STOP-Bang, uma ferramenta validada e de fácil aplicação:

•S (Snoring): Você ronca alto?

•T (Tiredness): Você se sente cansado, exausto ou sonolento durante o dia com frequência?

•O (Observed): Alguém já viu ou te falou que você para de respirar, engasga ou fica ofegante enquanto dorme?

•P (Pressure): Você tem ou está sendo tratado para pressão alta?

•B (Body mass index): IMC maior que 35 kg/m²

•A (Age): Idade acima de 50 anos

•N (Neck): Circunferência do pescoço maior que 43 cm (homens) ou 41 cm (mulheres)

•G (Gender): Sexo masculino

A pontuação varia de 0 a 8, classificando o risco em baixo (0-2 pontos), intermediário (3-4 pontos) e alto (5-8 pontos) [12]. Pacientes com pontuação alta no STOP-Bang devem ser considerados como tendo via aérea potencialmente difícil.

Outras condições importantes incluem artrite reumatoide (que pode causar instabilidade atlantoaxial e limitação da mobilidade cervical), doença pulmonar obstrutiva crônica (associada a alterações anatômicas e fisiológicas), diabetes mellitus (relacionado à síndrome da mão rígida e potencial dificuldade de intubação), obesidade (múltiplos fatores anatômicos e fisiológicos), e tumores de cabeça e pescoço (distorção anatômica e risco de sangramento).

Estruturas Anatômicas da Laringe

Figura 4: Visualização endoscópica das estruturas laríngeas mostrando epiglote, cordas vocais, aritenóides e esôfago

Exame Físico Sistemático: Os Mnemônicos LEMON e OBESE

O exame físico direcionado para avaliação da via aérea deve ser sistemático e abrangente. Mesmo sabendo que a maioria dos pacientes com via aérea difícil terá exame físico aparentemente normal, a avaliação estruturada pode identificar sinais importantes que passariam despercebidos em uma avaliação casual.

Mnemônico LEMON

O mnemônico LEMON é amplamente utilizado para avaliação sistemática da via aérea [13]:

L (Look externally): Avaliação visual externa buscando sinais que sugiram via aérea difícil. Procure por traumas faciais, incisivos centrais muito proeminentes, arco palatino muito elevado, pescoço curto, presença de barba ou bigode (que podem dificultar a vedação da máscara), e conformação facial anormal. Cicatrizes cervicais podem indicar cirurgias prévias que alteraram a anatomia local.

E (Evaluate): A regra 3-3-2 é fundamental para avaliação quantitativa. O paciente deve conseguir acomodar três dedos (do próprio paciente) entre as arcadas dentárias superior e inferior quando a boca está totalmente aberta. Uma distância menor que três dedos sugere abertura oral limitada. A distância entre a proeminência mentual (queixo) e o início do pescoço (osso hioide) deve acomodar três dedos do paciente. Finalmente, a distância entre o osso hioide e a incisura tireóidea deve acomodar dois dedos. Qualquer valor abaixo dessas referências é indicativo de potencial via aérea difícil.

M (Mallampati): A classificação de Mallampati avalia a visibilidade das estruturas da orofaringe com o paciente sentado em posição neutra, boca na maior abertura possível e língua em protrusão máxima. Classe I mostra palato mole, fauce, úvula e pilares amigdalianos visíveis; Classe II mostra palato mole, fauce e úvula visíveis; Classe III mostra palato mole e base da úvula visíveis; Classe IV mostra palato mole totalmente não visível. Classes III e IV estão associadas a maior dificuldade de intubação [14].

O (Obstruction): Avalie a presença de obstrução das vias aéreas superiores. Quatro sinais são indicativos: estridor, voz abafada, dificuldade para engolir secreções e sensação de dispneia. A presença de corpos estranhos, tumores, abcessos, epiglotite ou hematomas em expansão pode causar obstrução significativa.

N (Neck mobility): A mobilidade do pescoço é fator-chave para alcançar boa visualização durante a laringoscopia. Peça ao paciente para levar o mento até o peito e depois fazer extensão máxima. Limitação significativa da mobilidade cervical, seja por trauma, artrite, espondilite anquilosante ou outras causas, pode tornar a laringoscopia extremamente difícil.

Classificação de Cormack-Lehane

Figura 5: Classificação de Cormack-Lehane mostrando os diferentes graus de visualização laringoscópica

Mnemônico OBESE

Para predizer dificuldades específicas na ventilação sob máscara facial, utiliza-se o mnemônico OBESE [15]. A presença de dois ou mais destes fatores indica alta probabilidade de ventilação difícil:

O (Obesity): Obesidade definida como IMC ≥ 25 kg/m². O tecido adiposo excessivo na face e pescoço dificulta a vedação adequada da máscara e pode causar obstrução das vias aéreas superiores.

B (Beard): Presença de barba, que interfere na vedação adequada da máscara facial, permitindo vazamentos significativos.

E (Elderly): Pacientes idosos, tipicamente acima de 55 anos, que podem ter perda de tônus muscular e alterações anatômicas relacionadas à idade.

S (Snorers): Pacientes que roncam, indicando potencial obstrução das vias aéreas superiores durante o sono, que pode se manifestar também durante a ventilação sob máscara.

E (Edentulous): Pacientes edêntulos (sem dentes), onde a ausência de suporte dental altera a conformação facial e pode dificultar a ventilação sob máscara.

Classificações Complementares

Classificação de Cormack-Lehane

Durante a laringoscopia, a visualização das estruturas glóticas é classificada segundo Cormack-Lehane [16]:

•Grau I: Glote completamente visível

•Grau II: Somente a parte posterior da glote é visualizada

•Grau III: Somente a epiglote pode ser visualizada

•Grau IV: Nem a epiglote nem a glote podem ser visualizadas

Graus III e IV estão associados a intubação difícil e maior risco de complicações.

Preditores Específicos por Categoria

A literatura médica identifica preditores específicos para diferentes aspectos da via aérea difícil. Para ventilação sob máscara difícil, os principais fatores são: idade maior que 55-57 anos, IMC maior que 26-30 kg/m², presença de barba, ausência de dentes, história de roncos, Mallampati III ou IV, sexo masculino e protrusão mandibular limitada [17].

Para laringoscopia e intubação difícil, os preditores incluem: história prévia de intubação difícil, Mallampati III ou IV, gravidez, apneia obstrutiva do sono, circunferência do pescoço pequena ou muito grande, presença de bócio ou tumores cervicais, cirurgias prévias ou radioterapia na região de cabeça e pescoço, macroglossia, e abertura limitada da boca [18].

É importante lembrar que nenhum preditor isolado é 100% sensível ou específico. A avaliação deve ser global, considerando múltiplos fatores em conjunto. Além disso, aproximadamente 25% dos casos de via aérea difícil não são antecipados, reforçando a importância de estar sempre preparado para cenários inesperados, independentemente da avaliação inicial.

Preparação e Preoxigenação

Técnica de Intubação

Figura 6: Demonstração da técnica de intubação orotraqueal com posicionamento adequado do paciente e operador

A preparação adequada é o alicerce do manejo seguro da via aérea. Como diz o ditado médico: “falha em se preparar é preparar-se para falhar”. Esta fase inclui não apenas a preparação de equipamentos, mas também o posicionamento correto do paciente e a preoxigenação efetiva.

Posicionamento Adequado do Paciente

O posicionamento correto do paciente é fundamental para otimizar tanto a ventilação sob máscara quanto a visualização durante a laringoscopia. A escolha da posição deve considerar as características anatômicas do paciente e as circunstâncias clínicas.

Posição “Sniff” (Farejador)

A posição “sniff” ou posição do farejador é considerada o padrão-ouro para a maioria dos pacientes [19]. Esta posição é obtida através da flexão da cabeça sobre o tronco (aproximadamente 35°) combinada com a extensão da cabeça sobre o pescoço. O objetivo é alinhar os eixos oral, faríngeo e laríngeo, facilitando a visualização das cordas vocais durante a laringoscopia.

Para alcançar esta posição, coloca-se um coxim ou travesseiro sob a cabeça do paciente, elevando-a cerca de 8-10 cm em relação ao plano da mesa. A altura adequada pode ser estimada pela distância entre o processo mastoide e o ombro do paciente. É importante que a extensão atlantooccipital seja mantida, criando uma linha reta imaginária do meato auditivo externo até a incisura esternal.

Posição de Rampa para Pacientes Obesos

Para pacientes obesos (IMC > 30 kg/m²), a posição “sniff” tradicional frequentemente não é suficiente [20]. Nestes casos, recomenda-se a posição de rampa, onde o tórax e a cabeça do paciente são elevados de forma que uma linha imaginária conecte o meato auditivo externo à incisura esternal, criando uma “rampa” desde o tórax até a cabeça.

Esta posição pode ser obtida colocando-se múltiplos travesseiros ou cobertores dobrados sob o tórax, ombros e cabeça do paciente, ou utilizando-se dispositivos comerciais específicos para este fim. A posição de rampa oferece várias vantagens: melhora a mecânica respiratória, facilita a preoxigenação, melhora a visualização laringoscópica e reduz o risco de aspiração [21].

Estudos demonstram que a posição de rampa, comparada à posição “sniff” tradicional, resulta em melhor visualização das cordas vocais (Cormack-Lehane I ou II em 84% vs 54% dos casos), menor tempo de intubação e menor incidência de dessaturação durante o procedimento em pacientes obesos [22].

Considerações Especiais para Trauma

Em pacientes com suspeita de trauma cervical, o posicionamento deve ser modificado para manter a imobilização da coluna cervical. A posição neutra da cabeça deve ser mantida, com estabilização manual inline durante todo o procedimento. Nestes casos, pode ser necessário remover temporariamente o colar cervical para permitir abertura adequada da boca, desde que a estabilização manual seja mantida por um assistente treinado [23].

Técnicas de Preoxigenação

A preoxigenação é um dos passos mais críticos na preparação para intubação, especialmente em pacientes com via aérea difícil. O objetivo é maximizar as reservas de oxigênio do paciente, criando uma “margem de segurança” durante o período de apneia que ocorre durante a intubação.

Fundamentos Fisiológicos

Em condições normais, um adulto saudável respirando ar ambiente tem uma reserva funcional de oxigênio de aproximadamente 1.500-2.000 mL nos pulmões e 250-300 mL no sangue. Durante a apneia, esta reserva é rapidamente consumida, levando à dessaturação. A preoxigenação efetiva pode aumentar esta reserva para 3.000-4.000 mL, estendendo significativamente o tempo seguro de apneia [24].

Métodos de Preoxigenação

A preoxigenação tradicional consiste na administração de oxigênio a 100% através de máscara facial bem vedada por 3-5 minutos de respiração em volume corrente normal, ou através de 8 respirações profundas em 60 segundos. O objetivo é alcançar uma fração expirada de oxigênio (FeO2) maior que 90%, indicando substituição adequada do nitrogênio alveolar pelo oxigênio [25].

Para pacientes obesos, idosos ou com doença pulmonar, a preoxigenação padrão pode ser insuficiente. Nestes casos, técnicas modificadas podem ser necessárias:

A preoxigenação com PEEP (pressão positiva expiratória final) pode ser benéfica, especialmente em pacientes obesos. A aplicação de 5-10 cmH2O de PEEP durante a preoxigenação ajuda a manter os alvéolos abertos, melhorando a oxigenação e prolongando o tempo seguro de apneia [26].

A preoxigenação apneica é uma técnica avançada onde, após a indução anestésica e paralisia muscular, continua-se fornecendo oxigênio passivo através de cateter nasal ou máscara facial durante a laringoscopia. Esta técnica pode prolongar significativamente o tempo seguro de apneia, especialmente em pacientes obesos [27].

Monitorização da Preoxigenação

A efetividade da preoxigenação deve ser monitorizada sempre que possível. O método mais preciso é a medição da fração expirada de oxigênio (FeO2) através de capnografia, com objetivo de FeO2 > 90%. Na ausência de capnografia, pode-se utilizar a oximetria de pulso, embora seja menos precisa, com objetivo de SpO2 > 95% [28].

Preparação do Ambiente e Equipamentos

A preparação adequada do ambiente inclui a verificação sistemática de todos os equipamentos necessários e a definição clara dos planos A, B, C e D. Um checklist estruturado deve ser utilizado para garantir que nada seja esquecido:

Equipamentos básicos: Laringoscópio com lâminas de diferentes tamanhos e tipos, tubos orotraqueais de diferentes calibres, dispositivo para ventilação (ambu), fonte de oxigênio, aspirador funcionante, medicações para sequência rápida de intubação.

Equipamentos para via aérea difícil: Videolaringoscópio, bougie (guia estilete), máscaras laríngeas de diferentes tamanhos, dispositivos supraglóticos alternativos, fibroscópio flexível (se disponível).

Equipamentos para via aérea cirúrgica: Kit de cricotireoidostomia, bisturi, cânulas traqueais, dispositivos percutâneos para cricotireoidostomia.

A definição clara dos planos é essencial. O Plano A consiste na abordagem inicial planejada. O Plano B inclui técnicas alternativas de intubação (videolaringoscopia, bougie, etc.). O Plano C envolve dispositivos supraglóticos para manutenção da oxigenação. O Plano D é a via aérea cirúrgica de emergência. Todos os membros da equipe devem conhecer estes planos e estar preparados para executá-los rapidamente quando necessário.

A definição de papéis na equipe é igualmente importante. Deve-se designar claramente quem será responsável pela intubação, quem assistirá com medicações, quem monitorará os sinais vitais, e quem estará preparado para procedimentos de resgate. A comunicação clara e a liderança definida são fundamentais para o sucesso em situações de crise.

O Algoritmo “Não Entubo, Não Ventilo”

Algoritmo de Via Aérea Difícil

Figura 7: Algoritmo estruturado para manejo da via aérea difícil com fluxograma de decisões

O cenário “não entubo, não ventilo” representa a situação mais crítica no manejo da via aérea. É o momento em que todas as técnicas convencionais falharam e o paciente está em risco iminente de morte por hipoxemia. A capacidade de reconhecer rapidamente esta situação e implementar um algoritmo estruturado de resgate pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Reconhecimento da Situação Crítica

O primeiro passo crucial é o reconhecimento precoce de que se está diante de uma via aérea falha. Os critérios para definir esta situação incluem: incapacidade de intubar após múltiplas tentativas (geralmente três ou mais), incapacidade de ventilar adequadamente sob máscara facial (evidenciada por ausência de movimento torácico, ausência de CO2 expirado, dessaturação progressiva), e deterioração clínica do paciente com sinais de hipoxemia grave [29].

Os sinais de alarme que indicam progressão para via aérea falha incluem: saturação de oxigênio em queda livre (SpO2 < 90% e declinando), cianose central, bradicardia (especialmente em crianças), arritmias cardíacas, alteração do nível de consciência, e sinais de esforço respiratório inadequado ou ausente. É fundamental reconhecer que o tempo é extremamente limitado nesta situação – estudos mostram que a partir de SpO2 de 70%, o paciente tem apenas 2-3 minutos antes de desenvolver lesões irreversíveis [30].

Algoritmo Detalhado de Manejo

Figura 8: Algoritmo detalhado mostrando as diferentes estratégias e pontos de decisão no manejo da via aérea difícil

Sequência de Ações Imediatas: Os Planos A, B, C e D

Quando confrontado com a situação “não entubo, não ventilo”, deve-se seguir uma sequência estruturada e progressiva de ações. Esta abordagem sistemática, conhecida como algoritmo ABCD, foi desenvolvida e refinada por sociedades internacionais de anestesiologia e medicina de emergência [31].

Plano A: Otimização da Ventilação e Intubação

O Plano A consiste na otimização máxima da ventilação sob máscara e da técnica de intubação. Mesmo que tentativas prévias tenham falhado, modificações na técnica podem ser bem-sucedidas. Para otimizar a ventilação, implemente imediatamente a manobra de jaw thrust (tração da mandíbula), que consiste em posicionar os dedos indicador e médio sob os ângulos da mandíbula e tracionar anteriormente, desobstruindo a via aérea superior. Esta manobra é mais efetiva que a elevação do queixo em pacientes inconscientes [32].

A técnica C&E para ventilação sob máscara deve ser aplicada rigorosamente. O operador principal forma um “C” com o polegar e indicador ao redor da máscara, enquanto os outros três dedos formam um “E” ao longo da mandíbula, tracionando-a anteriormente. Um segundo operador deve comprimir o ambu, permitindo que o primeiro se concentre exclusivamente na vedação e posicionamento da máscara [33].

Considere a inserção de uma cânula orofaríngea (Guedel) se ainda não foi feita. O tamanho adequado é determinado medindo-se da comissura labial ao ângulo da mandíbula. A inserção deve ser feita com cuidado para evitar trauma e empurrar a língua posteriormente.

Para otimizar a intubação, certifique-se de que está sendo realizada uma tentativa ótima. Isto inclui: operador experiente (mais de 3 anos de prática), relaxamento muscular adequado, posicionamento ótimo do paciente, uso da lâmina de laringoscópio adequada (tamanho e tipo), aplicação de pressão laríngea externa quando apropriado, e aspiração adequada de secreções [34].

A manobra BURP (Backward, Upward, Rightward Pressure) pode melhorar significativamente a visualização. Aplique pressão sobre a cartilagem tireóidea direcionando-a posteriormente (em direção à coluna), superiormente (em direção à cabeça) e para a direita. Esta manobra pode converter uma visualização Cormack-Lehane III em II ou I [35].

Plano B: Dispositivos Supraglóticos

Se o Plano A falha, deve-se imediatamente progredir para o Plano B, que consiste na inserção de dispositivos supraglóticos para manutenção da oxigenação. O objetivo nesta fase não é necessariamente intubar, mas sim restabelecer a oxigenação enquanto se planeja a próxima estratégia.

Dispositivos Supraglóticos

Figura 9: Diferentes tipos de dispositivos supraglóticos disponíveis para manejo da via aérea difícil

A máscara laríngea é o dispositivo supraglótico mais comumente disponível e deve ser inserida sem demora. Escolha o tamanho adequado baseado no peso do paciente (tamanho 3 para 30-50 kg, tamanho 4 para 50-70 kg, tamanho 5 para 70-100 kg). A inserção deve ser feita com a cabeça em posição neutra ou ligeiramente fletida, deslizando o dispositivo ao longo do palato até sentir resistência [36].

Dispositivos alternativos incluem o tubo laríngeo (King LT), que pode ser mais fácil de inserir em situações difíceis, e máscaras laríngeas de segunda geração (LMA ProSeal, LMA Supreme), que oferecem melhor vedação e proteção contra aspiração [37].

Se a inserção do dispositivo supraglótico for bem-sucedida e a ventilação for restabelecida, pode-se considerar a intubação através do dispositivo (se tecnicamente possível) ou manter a ventilação através do dispositivo enquanto se planeja uma abordagem definitiva mais controlada.

Plano C: Tentativa Final com Máscara Facial

O Plano C representa uma tentativa final de ventilar com máscara facial antes de progredir para a via aérea cirúrgica. Esta etapa pode parecer contraditória, já que a ventilação com máscara já falhou, mas modificações na técnica podem ser efetivas.

Considere a ventilação a duas pessoas, onde um operador se concentra exclusivamente na vedação e posicionamento da máscara enquanto outro comprime o ambu. Esta técnica frequentemente é mais efetiva que a ventilação por uma única pessoa [38].

A aplicação de pressão positiva expiratória final (PEEP) pode ajudar a manter as vias aéreas abertas, especialmente em pacientes obesos. Use 5-10 cmH2O de PEEP através de válvula específica no circuito de ventilação.

Se houver suspeita de obstrução por corpo estranho, considere a aspiração agressiva da orofaringe ou mesmo a remoção manual de corpos estranhos visíveis. Em casos extremos, pode ser necessário posicionar o paciente em Trendelenburg e realizar compressões abdominais.

Plano D: Via Aérea Cirúrgica de Emergência

Quando todos os planos anteriores falharam e o paciente continua em hipoxemia grave, deve-se proceder imediatamente para o Plano D: acesso cirúrgico emergencial da via aérea através de cricotireoidostomia [39].

A cricotireoidostomia é o procedimento de escolha para via aérea cirúrgica de emergência em adultos. É tecnicamente mais simples que a traqueostomia e pode ser realizada mais rapidamente. As indicações absolutas incluem: impossibilidade de ventilar e intubar, obstrução completa da via aérea superior, trauma facial grave que impede intubação oral ou nasal, e edema grave de glote.

A técnica cirúrgica deve ser executada rapidamente mas com precisão. Identifique a membrana cricotireóidea através de palpação – ela está localizada entre a cartilagem tireóidea (proeminência laríngea) superiormente e a cartilagem cricóidea inferiormente. Faça uma incisão horizontal de 2-3 cm através da pele e da membrana cricotireóidea. Insira um tubo traqueal 6.0 ou 7.0, ou utilize um kit comercial específico para cricotireoidostomia [40].

Técnicas de Otimização Durante a Crise

Durante a implementação do algoritmo, várias técnicas podem ser utilizadas para otimizar as chances de sucesso:

A videolaringoscopia deve ser considerada precocemente se disponível. Estudos mostram que o videolaringoscópio pode melhorar a visualização em até 90% dos casos de Cormack-Lehane III ou IV [41]. Além disso, permite que outros membros da equipe visualizem o procedimento e assistam de forma mais efetiva.

O bougie (guia estilete) é uma ferramenta extremamente valiosa em casos de visualização limitada. Pode ser inserido mesmo quando apenas a epiglote é visível, e a sensação tátil de “cliques” traqueais confirma o posicionamento correto na traqueia [42].

A preoxigenação apneica deve ser mantida sempre que possível durante todo o procedimento. Mantenha oxigênio fluindo através de cateter nasal a 15 L/min ou máscara facial, mesmo durante as tentativas de intubação.

Considerações Especiais e Armadilhas

Várias armadilhas podem complicar o manejo da situação “não entubo, não ventilo”. A fixação em uma única técnica é um erro comum – se uma abordagem não está funcionando após 2-3 tentativas, mude imediatamente de estratégia. O tempo excessivo em cada tentativa também é prejudicial – cada tentativa de intubação não deve exceder 30 segundos.

A comunicação inadequada na equipe pode levar ao caos. Mantenha comunicação clara e constante, anunciando cada ação e solicitando assistência específica quando necessário. Designe um líder claro que tome as decisões e coordene as ações.

A hesitação em progredir para via aérea cirúrgica é uma armadilha potencialmente fatal. Quando os critérios para Plano D são atingidos, a cricotireoidostomia deve ser realizada imediatamente, sem hesitação adicional. Estudos mostram que o atraso na decisão de realizar via aérea cirúrgica é uma das principais causas de desfecho adverso em casos de via aérea falha [43].

Finalmente, é crucial manter a calma e o foco durante toda a situação. O estresse e a pressão temporal podem levar a erros de julgamento e técnica. Treinamento regular através de simulação é fundamental para desenvolver as habilidades e a confiança necessárias para manejar estas situações críticas de forma efetiva.

Estratégias de Backup e Via Aérea Cirúrgica

Kit de Cricotireoidostomia

Figura 10: Kit completo para cricotireoidostomia cirúrgica de emergência com instrumentos necessários

O sucesso no manejo da via aérea difícil depende não apenas do domínio das técnicas primárias, mas também da preparação e execução competente das estratégias de backup. Estas estratégias servem como rede de segurança quando as abordagens convencionais falham.

Dispositivos Supraglóticos: Salvadores de Vidas

Os dispositivos supraglóticos representam uma ponte crucial entre a ventilação com máscara facial e a via aérea cirúrgica. Sua principal vantagem é a facilidade e rapidez de inserção, mesmo por operadores com experiência limitada.

Máscara Laríngea

Figura 11: Máscara laríngea AIR-Q mostrando design e posicionamento adequado

A máscara laríngea clássica permanece como o dispositivo supraglótico mais amplamente disponível e utilizado. Sua inserção é relativamente simples e pode ser realizada mesmo em condições adversas. No entanto, oferece proteção limitada contra aspiração e pode não ser adequada para ventilação com pressões elevadas [44].

Dispositivos de segunda geração, como a LMA ProSeal e LMA Supreme, oferecem vantagens significativas incluindo melhor vedação, canal de drenagem gástrica e maior proteção contra aspiração. Estes dispositivos são particularmente úteis em pacientes com risco aumentado de aspiração ou quando é necessária ventilação com pressões mais elevadas [45].

O tubo laríngeo (King LT) é uma alternativa valiosa, especialmente em situações onde a inserção da máscara laríngea é difícil. Sua inserção é frequentemente mais simples e pode ser mais efetiva em pacientes com anatomia alterada da orofaringe [46].

Cricotireoidostomia: A Última Linha de Defesa

Técnica de Cricotireoidostomia

Figura 12: Demonstração da técnica de cricotireoidostomia cirúrgica de emergência

A cricotireoidostomia de emergência é o procedimento definitivo quando todas as outras estratégias falharam. Embora seja um procedimento invasivo, sua execução competente pode salvar vidas em situações críticas.

Indicações Precisas

As indicações para cricotireoidostomia de emergência são específicas e devem ser claramente compreendidas: falha completa na ventilação e intubação (situação “não entubo, não ventilo”), obstrução completa da via aérea superior que não pode ser contornada por métodos convencionais, trauma facial grave que impossibilita intubação oral ou nasal, e edema grave de glote que impede a passagem de dispositivos através das cordas vocais [47].

Técnica Cirúrgica Passo a Passo

A execução da cricotireoidostomia deve seguir uma sequência padronizada. Primeiro, identifique os marcos anatômicos: palpe a cartilagem tireóidea (proeminência laríngea ou “pomo de Adão”) e a cartilagem cricóidea logo abaixo. A membrana cricotireóidea está localizada no espaço entre estas duas cartilagens.

Posicione o paciente adequadamente com extensão cervical (se não houver contraindicação por trauma), o que torna os marcos anatômicos mais proeminentes e facilita o procedimento.

Prepare a pele rapidamente com antisséptico se o tempo permitir, mas não atrase o procedimento por preparação excessiva em situações de emergência extrema.

Faça a incisão: realize uma incisão horizontal de 2-3 cm através da pele e tecido subcutâneo sobre a membrana cricotireóidea. Em seguida, incise a própria membrana cricotireóidea horizontalmente. Evite incisões muito profundas para não lesionar a parede posterior da traqueia.

Insira o tubo: utilize um tubo orotraqueal 6.0 ou 7.0, ou um dispositivo específico para cricotireoidostomia. Direcione o tubo caudalmente (em direção aos pulmões) e insira apenas 2-3 cm além do cuff para evitar intubação do brônquio principal direito.

Confirme o posicionamento: insufle o cuff, conecte à ventilação e confirme a posição através de ausculta bilateral, movimento torácico simétrico e capnografia se disponível [48].

Complicações e Cuidados

As complicações da cricotireoidostomia incluem sangramento, lesão de estruturas adjacentes (artéria cricotireóidea, glândula tireoide), pneumotórax, enfisema subcutâneo, e estenose traqueal tardia. A maioria destas complicações pode ser minimizada através de técnica adequada e experiência do operador [49].

Após o procedimento, é essencial manter cuidados adequados incluindo fixação segura do tubo, monitorização contínua, e planejamento para conversão para traqueostomia formal quando as condições clínicas permitirem.

Casos Especiais e Considerações Práticas

Tubos Orotraqueais

Figura 13: Diferentes tamanhos e tipos de tubos orotraqueais para diferentes situações clínicas

Certas populações de pacientes apresentam desafios únicos no manejo da via aérea e requerem modificações nas técnicas padrão.

Pacientes Obesos

A obesidade (IMC > 30 kg/m²) apresenta múltiplos desafios para o manejo da via aérea. As alterações anatômicas incluem aumento do tecido adiposo na face e pescoço, redução da mobilidade cervical, e alterações na conformação da orofaringe. As alterações fisiológicas incluem redução da capacidade residual funcional, aumento do consumo de oxigênio, e maior tendência ao colapso alveolar [50].

As modificações técnicas necessárias incluem posicionamento em rampa, preoxigenação prolongada (até 8 minutos), uso de PEEP durante preoxigenação e ventilação, e consideração precoce de videolaringoscopia. A manutenção da ventilação espontânea pode ser preferível em casos selecionados.

Trauma Cervical

Pacientes com suspeita ou confirmação de trauma cervical requerem imobilização da coluna durante todo o procedimento. Isto limita significativamente a mobilidade cervical e pode tornar a laringoscopia extremamente difícil. A intubação com fibroscópio flexível é considerada o padrão-ouro quando disponível e quando o tempo permite. Alternativamente, a videolaringoscopia com estabilização manual inline pode ser utilizada [51].

Queimaduras de Via Aérea

Queimaduras envolvendo face, pescoço ou via aérea superior representam emergências absolutas. O edema progressivo pode causar obstrução completa da via aérea em questão de horas. A intubação precoce é mandatória, mesmo em pacientes aparentemente estáveis. A intubação com fibroscópio flexível é preferível quando disponível, permitindo avaliação direta do grau de lesão e navegação através de anatomia distorcida [52].

Considerações Pediátricas

Crianças apresentam diferenças anatômicas e fisiológicas significativas que afetam o manejo da via aérea. A cabeça proporcionalmente maior, língua maior em relação à cavidade oral, laringe mais anterior e superior, e menor reserva de oxigênio tornam a intubação pediátrica particularmente desafiadora. A dessaturação ocorre muito mais rapidamente em crianças, tornando a preoxigenação e a execução rápida ainda mais críticas [53].

Prevenção de Complicações e Melhoria da Qualidade

O manejo seguro da via aérea difícil não termina com o sucesso do procedimento. A prevenção de complicações e a melhoria contínua da qualidade são aspectos fundamentais de um programa abrangente de segurança da via aérea.

Treinamento e Simulação

O treinamento regular através de simulação é fundamental para manter as habilidades necessárias para manejar situações críticas. A simulação permite prática repetitiva de cenários de baixa frequência mas alta gravidade, desenvolvimento de trabalho em equipe, e familiarização com equipamentos e protocolos [54].

Programas de treinamento devem incluir cenários progressivos de dificuldade, desde via aérea difícil antecipada até situações de “não entubo, não ventilo”. O treinamento deve ser multidisciplinar, envolvendo médicos, enfermeiros e técnicos que participam do manejo da via aérea.

Debriefing e Análise de Casos

Após cada caso de via aérea difícil, especialmente aqueles com complicações, deve-se realizar um debriefing estruturado. Este processo permite identificação de fatores contribuintes, análise de decisões tomadas, e identificação de oportunidades de melhoria. O debriefing deve ser conduzido de forma não punitiva, focando no aprendizado e melhoria do sistema [55].

Indicadores de Qualidade

O estabelecimento de indicadores de qualidade permite monitorização objetiva da performance e identificação de tendências. Indicadores relevantes incluem taxa de sucesso na primeira tentativa, incidência de complicações (dessaturação, aspiração, trauma dental), tempo para via aérea definitiva, e utilização adequada de algoritmos estruturados [56].

Conclusão e Mensagens-Chave

Algoritmo Completo de Manejo

Figura 14: Algoritmo completo integrado para manejo da via aérea difícil com todas as estratégias

O manejo da via aérea difícil representa um dos maiores desafios na medicina de emergência e cuidados críticos. A diferença entre o sucesso e a catástrofe frequentemente reside na preparação adequada, reconhecimento precoce dos fatores de risco, e execução competente de algoritmos estruturados.

As mensagens-chave deste artigo incluem a importância fundamental da avaliação sistemática pré-procedimento utilizando ferramentas validadas como os mnemônicos LEMON e OBESE. O reconhecimento precoce da via aérea difícil permite planejamento adequado e preparação de estratégias alternativas, reduzindo significativamente o risco de complicações.

A preparação meticulosa incluindo posicionamento adequado, preoxigenação efetiva, e disponibilidade de equipamentos de backup é essencial para o sucesso. O domínio de algoritmos estruturados, particularmente o algoritmo ABCD para situações “não entubo, não ventilo”, pode salvar vidas em momentos críticos.

A prática regular através de simulação e o treinamento multidisciplinar são fundamentais para manter as habilidades necessárias para manejar estas situações de baixa frequência mas alta gravidade. Finalmente, a melhoria contínua através de debriefing, análise de casos, e monitorização de indicadores de qualidade é essencial para um programa abrangente de segurança da via aérea.

Lembre-se: na via aérea difícil, a preparação é tudo, a execução deve ser precisa, e a humildade para reconhecer quando mudar de estratégia pode ser a diferença entre a vida e a morte. Mantenha-se atualizado, pratique regularmente, e nunca subestime a complexidade deste procedimento aparentemente simples mas potencialmente fatal.

O domínio destas competências não é apenas uma questão de excelência profissional – é uma responsabilidade ética com cada paciente que confia sua vida em nossas mãos durante seus momentos mais vulneráveis.

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